“Azedinho protetor” Substâncias presentes em frutas cítricas reduzem efeitos nocivos de dietas gordurosas

Isabela de Oliveira – Correio Braziliense

 

Laranja, limão e lima podem proteger o organismo de perigosos efeitos da obesidade, como doenças do coração, do fígado e o diabetes, sugerem pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em uma pesquisa apresentada ontem na 252ª Reunião Nacional da Sociedade Americana de Química (ACS, na sigla em inglês), realizada na Filadélfia (Estados Unidos). O efeito protetivo foi observado em ratos alimentados com uma dieta calórica e rica em gordura, semelhante à adotada na maioria dos países ocidentais.
“Nossos resultados indicam que, no futuro, podemos usar flavononas cítricas, uma classe de antioxidantes, para prevenir ou retardar doenças crônicas causadas pela obesidade em seres humanos”, diz Paula Ferreira, principal autora da pesquisa. Flavonas são uma subclasse dos flavonoides, componentes encontrados em frutas, vegetais, flores, mel, chás e vinhos.

O trabalho brasileiro corrobora outros estudos com animais e experimentos in vitro que encontraram associação entre os flavonoides presentes em frutas cítricas e a redução do risco para doenças metabólicas. Isso acontece, acreditam os pesquisadores, porque os componentes reduzem o estresse oxidativo, processo que danifica células saudáveis.

Os agentes dessa destruição são chamados de espécies reativas de oxigênio, que são radicais livres gerados pelas células de gordura. Organismos obesos sofrem mais estresse oxidativo por possuírem mais células de gordura, que diminuem a capacidade natural do corpo de combater radicais livres.

Durante seu mestrado, apresentado em 2014 na Unesp, Paula Ferreira observou que o consumo excessivo de gordura é suficiente para promover esse mesmo efeito danoso. Ela passou, então, a investigar a ação de flavonoides cítricos no organismo de 50 ratos sem modificações genéticas e alimentados com uma dieta rica em alimentos gordurosos e calóricos.

Os animais foram divididos em grupos. Enquanto alguns não receberam nenhum tipo de tratamento, a outros foram dadas doses de hesperidina, eriocitrina ou eriodictiol, flavononas encontradas em frutas como laranjas, limões e limas. Durante um mês, a cientista observou a resposta dos animais à dieta gorda combinada ou não ao consumo dos compostos.
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A dieta com teor elevado de gordura, sem adição das flavononas, provocou o aumento dos níveis de um marcador de dano celular chamado ácido tiobarbitúrico (TBARS). O índice desse marcador subiu 80% no sangue e 57% no fígado desses animais, quando comparados a roedores que recebiam uma dieta balanceada.

No entanto, quando hesperidina, eriocitrina ou eriodictiol foram adicionados à alimentação dos animais, houve diminuição de 50%, 57% e 64%, respectivamente, da TBARS no fígado. A eriocitrina e o eriodictiol reduziram os níveis do marcador no sangue em 48% e 47%, respectivamente. Esses dois últimos compostos provocaram ainda uma redução substancial no acúmulo de gordura no fígado, que sofreu menos lesões causadas pela dieta insalubre.

“Nossos estudos não mostraram qualquer perda de peso devido às flavononas cítricas”, ressalta Thais Cesar, pesquisadora-sênior do trabalho. “No entanto, mesmo sem ajudar os ratos a perderem peso, eles os deixaram mais saudáveis e com menor estresse oxidativo, menos danos ao fígado e taxas mais baixas de lipídio arterial e de glicose no sangue”, completa.

Paula Ferreira acrescenta: “Esse estudo também sugere que o consumo de frutas cítricas, provavelmente, pode ter efeitos benéficos para pessoas não obesas com dietas ricas em gorduras. Essa alimentação as coloca em risco de doenças cardiovasculares, resistência à insulina e obesidade abdominal”.

Efeitos diversificados
Os flavonoides são uma classe de substâncias com ação anti-inflamatória, hormonal, anti-hemorrágica, antialérgica e anticâncer. Também promovem resistência capilar e absorção otimizada da vitamina C. Entretanto, o benefício mais relevante é o de antioxidante, sobretudo na prevenção de câncer e doenças cardiovasculares. Plantas como ginkgo biloba, maracujá e espécies do gênero citrus são algumas das mais estudadas.
“Esse estudo também sugere que o consumo de frutas cítricas, provavelmente, pode ter efeitos benéficos para as pessoas que não são obesas, mas têm dietas ricas em gorduras” – Paula Ferreira, principal autora da pesquisa

 

Fonte: Correio Brasiliense